Tá rolando pelo facebook o seguinte vídeo:
É bonito, é emocionante, é uma história de superação. Concordo. Mas vamos aos fatos:
O STF julga nessa quarta-feira o direito de aborto para bebês diagnosticados com anencefalia. Anencefalia é uma má formação que impede que essa criança seja compatível com a vida – sim, é esse o termo usado pela medicina, incompatível com a vida. Por que? Porque é um feto sem cérebro. As chances de sobrevivência são nulas. Bebês anencéfalos sobrevivem por alguns minutos após o parto ou, em casos raros, apenas por algumas horas.
Pois bem, dito isto, como a menina Vitória, da reportagem, conseguiu sobreviver e, hoje, tem 2 anos?
A questão é que a menina da matéria não é anencéfala. Ela tem uma má formação no crânio chamada acrania. Se ela não tivesse cérebro, não teria sobrevivido. Aí que tá a diferença. Eu queria que alguém percebesse isso… e ninguém percebeu. A matéria explorou um assunto triste e delicado com uma história chocante, que pudesse sensibilizar as pessoas. Com imagens fortes de uma criança deformada, que sobreviveu a um destino pré-definido pela medicina. Só que não, ela não é um exemplo do que o STF deve julgar hoje. Hoje eles devem julgar crianças que não tem cérebro – e não as com má formação no crânio.
Fiquei puta da vida quando vi a matéria porque o assunto já é terrível de ser julgado. Concordo que a decisão cabe somente a mãe, de decidir manter ou não uma gestação para a morte. Só ela sabe a dor que sente em gerar uma criança com atestado de óbito no lugar da certidão de nascimento. Só que as pessoas já tem pouca informação sobre. Aí me vem um telejornal e expõe uma história de certa forma falsa, que não cabe como exemplo para a anencefalia. Não digo falsa porque é mentira. Digo falsa porque representa um assunto com o qual não corresponde. Aí é claro que a sociedade vai apedrejar uma mãe que escolher pelo aborto. Qual a responsabilidade (ou a falta dela) da imprensa, neste caso? Fico admirada que, ainda hoje, uma história comovente possa deturpar a verdade de tal forma. É incrível que a mídia ainda considere a população anencéfala, sem a capacidade de pensar, filtrar, distinguir. E é incrível que as pessoas, às vezes, parecem fazer questão de não terem cérebro, apenas absorvendo o que assistem, ouvem, leem. Acho engraçado isso. Perceba quantas pessoas hoje, no seu facebook, citaram esse assunto. E veja quantas compartilharam aquelas babaquices sem fim.
Chega a ser irônico – senão triste, mas, me parece realmente estranho que um Estado/sociedade realmente anencéfalo possa julgar a anencefalia.
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ps: Quando eu estava na faculdade, assisti a um documentário excelente da Eliane Brum, chamado ‘Uma História Severina’.
Como explica a própria Eliane, na sua coluna desta segunda-feira, 09/04, “… Severina, que nos conta com o seu viver o que é a vida em tragédia. Em 20 de outubro de 2004, no mesmo momento em que o Supremo derrubava a liminar que permitia o aborto de anencéfalo sem autorização judicial e um dos ministros perguntava se essas mulheres existiam, Severina Maria Leôncio Ferreira internava-se em um hospital do Recife para interromper a gestação. O médico decidiu deixar o procedimento para o dia seguinte – e no dia seguinte foi tarde demais. Severina teve de deixar o hospital carregando sua dor e sua barriga. Era o seu segundo filho. E ele não viveria.”


